Saíra cedo de casa, ainda a noite as quatro da manhã, seu corpo ainda não havia descansado do exercício ao virar massa para fazer a laje de seu vizinho companheiro de longa data, era uma dor muscular, uma exaustão levemente atenuada por algumas poucas horas de sono, mas que eram as marcas da amizade da solidariedade daqueles que tem tão pouco e ainda assim são felizes. Antes de sair, como de costume, dera um forte abraço e um carinhoso beijo em sua esposa que em meia hora também levantaria para agilizar as necessidades da casa, para mais tarde levar seus três meninos a escola e finalmente ir a feira levar as roupas que comprava quinzenalmente com o auxílio de seu marido. Passou pelo quarto de seus meninos a pedir a Deus proteção.
E assim ele seguiu seu rotineiro caminho, após vinte minutos de caminhada, chegava a estação de trem de Mesquita a seguir rumo ao centro da cidade, onde fazia bicos associado a um empreiteiro, sabia trabalhar com gesso como ninguém, além de excelente encanador. Durante a viagem ainda sentia dentro de seu ser as excelentes vibrações da celebração do dia anterior, o suor, as crianças a correr, as mulheres a preparar almoço animadas e os homens a cantar e dar duro para que terminassem a laje ainda naquela tardinha, sorria por dentro e este sorriso transbordava-lhe o semblante...
Naquele dia, chegou tão rápido ao centro da cidade que nem havia notado como! Sim, fez daquela viagem algo muito gostoso, mais ainda do que os outros dias que ia sempre alegre agradecendo a Deus pelos trabalhos que conseguia para a semana já eram quase sete horas.
Paralelamente a aquela vida, arrumava-se o Dr.advogado, com muita pressa pois deveria chegar ao fórum de Nova Iguaçu ainda as oito da manhã e como homem solteiro, abastado, havia sofrido a solidão na noite anterior, preenchendo-a com muito álcool e prostitutas, ainda lhe era vivo o cheiro agora asqueroso daquele lugar, onde aquelas pobres vidas eram alugadas. Desceu ainda a colocar a gravata no elevador e seguir até o seu carro, correndo pela garagem. Jogara a maleta no banco do carona e já retirou o documento processual a ser utilizado naquela manhã. E assim pisou fundo, e cortou o aterro do flamengo em segundos, ziguezague ando por entre os carros e realizando manobras a sorte, seguiu seu caminho.
E retornando ao nosso querido pai de família, este já havia desembarcado do trem e agora dirigia-se ao campo de santana, o qual era sempre um prazer atravessar sendo caminho de seu trabalho. O Dr. já estava indo pela Av. Presidente Vargas a toda velocidade possível para não chamar muita atenção e sempre que possível deitava os olhos em seu processo, como um aluno estudando no dia da prova... E o pai de família nestre mesmo instante, como em todos os dias, foi atravessando junto a diversos outros pedestrespor entre os carros, poia primeira faixa estava congestionada. E lá vinha o Dr. com seu lindo carro importado acelerando mais um pouco para passar ainda sob o sinal amarelo... O querido pai de família seguia a correr como alguns outros para atravessar erroneamente entre duas faixas de pedestres, e quando ouviu um grito encontrou apenas o rosto extremamente desesperado do Dr. dentro de seu carro...
Este ainda tentou desviar, mas já era tarde... Sr. José, arrimo de família fora arremessado dez metros adiante e jazia em seu corpo imóvel e apenas um pequeno fio de sangue a contrastar com o asfalto negro... Dr. Azevedo correu no intuito desesperado de encontrar José ainda vivo, mas já era tarde...
De quem é a responsabilidade?
Quem tinha algo valioso a perder?
É bom pensar nisso... Pois, a nossa vida é como aquele fio de sangue... Pode escorrer pela estrada davida, ou ser interceptada por nossos próprios passos... Assim como o sofrimento de tirar a vida de uma outra pessoa também pode acabar com a própria vida, quando desespera-se e é corroído pelo remorso e pela dor...
Pense nisso...
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